Por aqui a coisa andará sempre em ritmo diferenciado: as novas inclusões serão sempre feitas sem regra e sem regularidade. A pretensão é escrever sobre absurdos... Sem interesse específico, sem definição, sem norte e sem noção.

quinta-feira, março 01, 2007

Mais um carnaval carioca


São 100 anos de vida. Muita responsabilidade, conteúdo e experiência são marcas registradas, qualidades que andam diretamente ligadas com um passado de memórias bastante díspares, recheadas de putarias, malandragem, festas e realizações. Mesmo com uma kilometragem já avançada, a energia de ser a madrinha de um bloco de rua carioca, que sai às tardes do primeiro domingo pós-carnaval – ressaca pouca é bobagem, de subir em um caminhão de som e ficar embaixo de um sol de 35 graus por longas horas faz de Cleuza Cretina um ícone!

Sim!

Cretina é a única bisavó viva de uma família de 147: 13 filhos, 44 netos – todos magros de ruim, chatos para comer mingau e hortelã e cheios de “disse-me-disses” - e 90 bisnetos, todos aproveitadores juvenis, que só gostam mesmo de encontrar a “bisa” na época do carnaval pra encher a cara de graça do bloco que a velhinha é madrinha. Ela é, além de celebridade, uma síntese de sofrimento longo e continuado, misturado com toda uma brasilidade ultrapassada, da qual ainda resta um traço marcante de megalomania.

Quanto mais debilitada e perto de morrer com tanto sol, suor e cerveja, melhor! Afinal, ser “o maior bloco do mundo onde a madrinha foi a mais idosa a morrer durante o desfile depois de se entupir de cerveja e torresmo” já seria um enorme prêmio, cheio de reconhecimento, para uma sociedade pautada pelo estigma do “maior e melhor”, mesmo que em nenhum quesito - que não as bundas do carnaval - haja um exemplo ou legado carioca para o mundo.

Voltando à nossa estimada CC: neste ano, cheia de energia, netos e bisnetos, resolveu inovar e desfilar de biquíni. Todos os organizadores do bloco ficaram um tanto quanto constrangidos, já que a silhueta da ex-moça já não é lá tão enxuta (nada, na verdade!) e aquela atitude poderia transformar a tradicional presença da vovó numa enorme chacota.

Mesmo assim a sugestão foi aceita e (pasmem!) o dia terminou com duzentos anos de peitos voando como se fossem parte de um topless de princesa da beleza. De tanta manguaça, gordura e calor, as estribeiras foram perdidas e Cleuza, de cima do trio, sentia o calor do asfalto e derrubava foliões alcoolicamente alterados lá em baixo.

“Cretina, Cretina, Cretina”!

Ensandecidos, muitos dos bebaços - os que agüentaram alí até aquela altura - urravam ao ter o desprazer de acompanhar o strip-tease completo e ver a velha cretina (Cretina) peladinha. Foi o ápice da tarde de despedida do Carnaval (agora de uma vez por todas) e suficiente pra transformar os próximos 365 dias em um período de espera. Tomara que Cretina ainda esteja por aí pra mais uma dessas, a de 101!